sábado, 14 de agosto de 2010

o homem discreto.

Ele era muito discreto. Procurava não fazer o mínimo barulho quando adentrava nas mais diferentes residencias da classe alta paulista. Fazia tudo sozinho. Em torno de meio dia, ia entrando pelos portões dos prédios mais luxuosos dos Jardins. O figurino, claro, específico para a ocasião. Vestia um terno preto risca de giz e uma gravata vinho, sempre a mesma gravata que lhe dava sorte, uma valise preta na mão esquerda e um óculos escuros que cobria metade do rosto. O porteiro ia ao interfone e era sempre: "o que deseja?" ou "como posso ajudar?". Ele SEMPRE respondia: obrigado pela atenção, mas marquei de me encontrar com um sócio aqui na porta. Ás vezes não levava nem cinco minutos. Todos os porteiros o convidavam para esperar do lado de dentro do prédio. Ele entrava. Agradecia mais uma vez e se sentava no sofá do hall, sempre muito chique. Era tempo de colocar a sua valise sobre o seu colo que misteriosamente, o seu celular, sempre de última geração, tocava. "Alô? Estou te esperando! Quer que eu suba? Mas nós marcamos aqui embaixo! Tudo bem! Só uma xícara!". E era assim que ele pegava o elevador principal e sem levantar nenhuma suspeita, circulava pelos corredores do prédio. Ele tocava a campanhia de todos os apartamentos. Geralmente um por andar, no máximo dois. E quando alguém atendia, ele simplesmente dizia "Desculpe, o honda civic em frente a fachada do prédio é seu? Eu gostaria de tirar o meu carro. Está bem atrás!" Quando ninguém atendia, ele entrava. Tirava uma penca de chaves do bolso, um grampo de cabelo e pronto. Nenhuma fechadura que resista. Fechava a porta. E todo objeto de valor que coubesse dentro da valise, ele ali a colocava. Chegara uma vez a acumular um milhão de reais somente em jóias preciosas que consiguira no Jardim América. Foi assim durante uns dez anos. O quanto ele acumulou era um valor surpreendivel. Todo dia ele saia para trabalhar. E como trabalhava sozinho, tudo ficava para ele. Não podia confiar em bancos, como explicar esse valor altíssimo que possuia? Até que resolveu se aposentar. Um último roubo. Um último prédio. A essa altura do campeonato ele tinha dinheiro para viver mais cinco vidas sem precisar trabalhar. Acordou, tomou um banho, tomou café e pos o terno preto com risca de giz como de costume. A gravata da sorte vinho e a valise preta na mão esquerda. Pegou um óculos lindo da Prada que havia comprado se não me engano duas semanas antes. E foi em direção ao Morumbi. O mesmo esquema de sempre e logo estava dentro do apartamento de um famoso apresentador de televisão. Sozinho. Embolso todas as jóias de sua esposa, dólares que guardava dentro de um cofre atrás de um quadro sobre a escrivaninha do escritório. Uns cem mil reais de brincadeira foram embolsados naquele dia. Satisfeito, Ele voltou pra casa. Foi recebido com uma citação ao menos curiosa de seu porteiro no Jardim Paulista: "Ué? Pensei que o senhor tivesse em casa. O moço de terno subiu pra falar com o senhor!" Sem pensar duas vezes, Ele subiu correndo as escadas, deixando a valise pra trás no hall da portaria. Não havia nem saber quem poderia ser. As cameras de segurança só seriam implantadas na segunda-feira. Chegou no seu andar e sua porta estava arrombada, todo o trabalho de dez anos, havia sido em vão. O misterioso homem de terno e gravata havia levado tudo. Um momento de emoção tomou conta d'Ele, mas foi rápido. Lembro que ao menos tinha uns cem mil que havia conseguido na brincadeira do dia. Desceu pra bsucar a valise na portaria. O porteiro o encarava com curiosidade: "Ué Aldemar? Cadê a minha valise?" Ele olhou pra mim com mais curiosidade ainda:"Que Valise, doutor?"



por alberto szafran.

-----------x----------

Nenhum comentário:

Postar um comentário