quinta-feira, 25 de novembro de 2010

mafiosos animais - o teatro do absurdo.

MAFIOSOS ANIMAIS
De Alberto Szafran

baseado em "O Rinoceronte" de Eugéne Ionesco.

Doroth e Kelly estão sentadas uma do lado da outra tomando um chá. Doroth para de tomar o chá e olha para Kelly.

DOROTH – Não olha agora não... Mas tem um rinoceronte vindo na nossa direção.

KELLY – Eu já vi... Será que nós... vamos embora?

DOROTH – Não! Continue sentada! Já pensou pagar essa vergonha?!

KELLY – Ta bom...

Tempo.

KELLY – Como é o rinoceronte?

DOROTH – O que?

KELLY – Como é o rinoceronte?

Doroth olha bem devagar e depois volta ligeiramente.

DOROTH – Ele é cinza, e tem um chifre na cabeça...

KELLY – Eu conheço ele!

DOROTH – O que?

KELLY – É o Aroldo...

DOROTH – Quem?!

KELLY – Aroldo, meu vizinho!

DOROTH – O rinoceronte é o seu vizinho?

KELLY – E o pior... To devendo dinheiro para ele!

DOROTH – Você está devendo dinheiro para um rinoceronte?

KELLY – Você acha que ele veio aqui para cobrar de mim???

DOROTH – Depende... Você esta devendo muito dinheiro para ele?
KELLY – Duzentos francos!

DOROTH – Caramba! Rinocerontes odeiam quem fica devendo duzentos francos á eles!

KELLY – Como você sabe?

DOROTH – Porque eu já fiquei devendo para um!

KELLY – Você já ficou devendo dinheiro para um rinoceronte?

DOROTH – Para um hipopótamo...

KELLY – O que o hipopótamo fez?

DOROTH – Ele veio me cobrar o dinheiro!

KELLY – Sim mais na hora de ele te cobrar o dinheiro, o que ele fez?

DOROTH – Ele me levantou com o chifre...

Kelly interrompe.

KELLY – Hipopótamo tem chifre?

DOROTH – Não... Mas esse tinha! E era grande!

KELLY – Maior do que desse rinoceronte?

Doroth volta á olhar o rinoceronte.

DOROTH – Oh!

KELLY – Mas o que ele fez?

DOROTH – Ele quem?

KELLY – O hipopótamo!

DOROTH – Ele me levantou com o chifre!

KELLY – O hipopótamo?

DOROTH – É... E a pior parte ainda está por vir... Um cachorro...

KELLY – Um cachorro?
DOROTH – Um cachorro que o acompanhava estendeu a pata para mim. Foi quando descobri que ele era cego!

KELLY – É impressionante, esses cachorros de hoje em dia guiam até hipopótamos!

DOROTH – Mas quem disse que o cego era o hipopótamo?

KELLY – Não era?

DOROTH – O cego era o cachorro, e quem estava o guiando era o hipopótamo!

KELLY – Mas isso é um absurdo! Porque ele não usava uma bengala?

DOROTH – Não sei... Só sei que atrás do cachorro havia uma onça!

KELLY – Uma onça?

DOROTH – É... Uma onça de terno! Devia ser o seu segurança!

KELLY – Estava armada?

DOROTH – Quem?

KELLY – A onça!

DOROTH – Não sei, quer dizer, é, quer dizer, não vi!

KELLY – Afinal você viu, ou você não viu?

DOROTH – Não vi... Mas eu sei que ela estava!

KELLY – Como você sabe?

DOROTH – O que?

KELLY – Que a onça estava armada?

DOROTH – Porque toda hora ela mexia no bolso!

KELLY – Poderia ser para pagar a conta!

DOROTH – Você acha que segurança vai pagar a conta?

KELLY – Mas continua...

DOROTH – A situação ficou pior!

KELLY – O que aconteceu?

DOROTH – Chegou um lobo, acompanhado de uma vaca, e atrás um tigre, esse de bengala e vestindo um terno...

KELLY – Então eram duas gangues, gangues animais!

DOROTH – Exatamente! Dois grupos de mafiosos, muito bem vestidos, e muito bem armados!

KELLY – E o que aconteceu depois?

DOROTH – As duas gangues entram no toalete masculino...

KELLY – E depois?

DOROTH – E depois eu nunca mais os vi! Eu só me lembro de um cavalo, vestindo uma roupa policial, que galopava na minha direção para acalmar a situação...

KELLY – E o que mais?

DOROTH – Acordei...

KELLY – Acordou?

DOROTH – Acordei em uma cama de hospital onde vi que o médico responsável era um flamingo...

KELLY – Mas você acha que o Flamingo também faz parte da conspiração?

DOROTH – Dificilmente! Eu mal tinha acordado e ele já tinha me dado alta...

Kelly olha para traz.

KELLY – Ué, onde está o rinoceronte?

DOROTH – O rinoceronte sumiu?

Kelly volta á olhar para traz.

KELLY – Um hipopótamo!

DOROTH – Pois é um hipopótamo me levantou com o chifre...

KELLY – Não tem um hipopótamo atrás da gente!

DOROTH – Há meu deus! Então eu acho melhor agente ir embora antes que ele venha cobrar duzentos francos á gente!

KELLY – Um hipopótamo já veio te cobrar duzentos francos?

DOROTH – Eu ainda não te contei essa história?

KELLY – Não...

DOROTH – Então eu vou contar...

Doroth começa á contar toda a história novamente enquanto a luz vai apagando e uma música de fundo termina a cena.

FIM.


por alberto szafran.


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