Ele corria todo dia do trabalho para a sua casa. Mas corria mesmo. Morava relativamente perto do serviço, umas três quadras. Largava no restaurante exatamente ás 19:00 e 19:07 já chegava em sua residência.
Assim que entrava em casa ele tirava a camisa e a jogava em cima de sofá logo a direita da porta. Ia direto pra cozinha, tirava a pipoca amanteigada do armário que comprara na mesma manhã, colocava no microondas e apagava a luz. Pegava a Coca na geladeira e a colocava ao lado da poltrona em frente a sala. Tudo pronto. O telescópio entre a poltrona e a janela. O microondas apitava denunciando a pipoca que ficava pronta. Já ligado na janela do prédio logo a frente, ele despejava a pipoca do saco uma vasilha de plástico acima do fogão quatro bocas. Trazia para a poltrona, colocava sobre o seu colo e a Coca-Cola entre a coxa esquerda e o braço do assento que a equilibrava. Tudo apagado. Extremamente imperceptível. Eram exatamente 19:16. Ela chegava em casa. Chegava em torno dessa hora sempre, entre 19:15 e 19:20. Ela não fazia absolutamente nada demais. Entrava em casa, apanhava a correspondência no chão, deixava a bolsa sobre a mesa e entrava em seu quarto. Pronto. A mágica acabava. Isso era questão de minutos, as vezes nem isso. Mas só isso o deixava louco.
Essa cena se repetira várias vezes. Até que um dia, ela simplesmente não apareceu. Ele a esperara até 19:40 e ela não estava lá. Ele foi caindo em uma angústia profunda. Perguntas impertinentes circundavam os seus raciocínios até que... Ele escutou um barulho estranho atrás da poltrona. Como se fosse alguém, mastigando pipoca. Rapidamente ele olhou para trás e a viu, comendo pipoca, com um pequeno binóculos de bolso o observando. Ela contemplou-o com um sorriso. Ele vermelho de vergonha. Ela joga o binóculos sobre a mesa. Fecha o sorriso totalmente e o encara por alguns segundos. Ele esperava alguma bronca ou algum deboche. Ela se levantou, foi até ele e soltou:
- Quer pipoca?!
por alberto szafran.
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